[RMC] Ação da PM Levou Terror e Morte Para Frente de Escola No Morro do Preventório Em Niterói – RJ

“A Chapa esquentou, infelizmente não deu pra correr, só
que o moleque não tinha nada ver, e na favela geral se
revoltou o atingido era um morador, olha seu doutor o
povo humilde tá sofrendo a sequela ninguém tem culpa
de morar na favela e a cada dia a situação se
complica, na invasão dos morros inocentes perdendo a
vida.” (Mc Gil do Andaraí)

  Por volta das 11h15 da última sexta-feira, dia 31de maio, policiais do GAT (Grupamento de Ações Táticas), do 12° Batalhão da PM de Niterói, invadiram a comunidade do Preventório espalhando terror ao distribuírem rajadas de fuzil em frente a uma escola. A quantidade de tiros foi tamanha que os alunos da Escola Intercultural Brasil-França (antigo Brizolão/CIEP 449) tiveram de se proteger dos disparos indo para os corredores e se deitando no chão.

  O resultado dessa ação terrorista da Polícia Militar não poderia ser menos trágica. Dois jovens foram assassinados, um aluno foi baleado no braço e uma comunidade inteira amedrontada e sangrando de dor. Medo e dor que os poderosos do estado ignoraram completamente. Fica o exemplo da total apatia da Prefeitura de Niterói que por nota declarou que as aulas transcorriam em total normalidade na Escola infantil Darcy Ribeiro, localizada também na comunidade e próxima ao Brizolão, com a comunidade estando em choque e luto. Nada estava na normalidade, dois jovens foram assassinados e um foi baleado!

A Morte de Mais um Inocente

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Assim como é de praxe, tanto a Polícia Militar quanto a mídia burguesa, afirmavam que os mortos seriam “bandidos”. E Logo a dor da comunidade começou a ser transformada em revolta quando moradores conseguiram reconhecer um dos mortos, e viram que se tratava de uma farsa e tiveram dimensão do tamanho da tragédia. Pois o corpo alvejado pelas costas e tombado em frente à escola se tratava na verdade de um jovem querido por todos na comunidade — jovem negro, evangélico, trabalhador, estudioso — que nunca na vida teve envolvimento com o tráfico e que era reconhecido na comunidade por ser gentil tranquilo e batalhador desde cedo. Esse era o jovem Lucas Muratt que teve sua vida retirada covardemente pela polícia do estado genocida.

     A cada manchete caluniosa da mídia burguesa como “Bandidos mortos e alunos apavorados em Charitas” ou “Operação policial termina com dois suspeitos mortos e um baleado em Niterói”, a indignação e a revolta foram aumentando nos moradores que tiveram como único canal para expor a verdade o Instagram da Mc Carol, que devido ser “cria” do Preventório e conhecer o Lucas, passou a compartilhar nos seus stories a versão real da história e conseguiu ganhar atenção de muitos internautas e de alguns poucos jornais, como foi o caso do Extra que publicou um de seus desabafos:             

“Hoje a polícia foi na minha comunidade e acertou um estudante na porta da escola. Atirou num menino de 18 anos pelas costas. Esse menino não tinha envolvimento com nada, era trabalhador. A polícia matou o menino. Alguém para com essa guerra, pelo amor de Deus. O menino não estava armado, não estava com nada, gente.”

A Revolta Desceu para o Asfalto

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O Morro do Preventório está cravado no seio de uma das áreas mais nobres de Niterói e também numa região estratégica para a logística do transporte da cidade. No pé do morro há uma estação das barcas na qual o preço da passagem custa R$16,70 e que devido ao preço só atende a classe média e a pequena burguesia que reside nas praias, o morro também é cortado pelo túnel Charitas-Cafubá que para ser construído desalojou várias famílias na comunidade. Logo os moradores sabem o quanto chama a atenção qualquer problema no trânsito naquela região e foi o que fizeram.

Repetiram o que haviam feito no dia 29 de abril após ficarem 24 horas sem luz e água. Os moradores novamente desceram o morro bloqueando as vias principais e o túnel Charitas-Cafubá utilizando de barricadas erguidas com madeiras, móveis e pneus. Porém dessa vez não se tratava de mais um dia sem luz e água, e sim se tratava da morte de um inocente que era querido pela comunidade. Logo o que era um protesto ganhou contornos de revolta popular com Quatro ônibus sendo incendiados, um apedrejado, estação das barcas sendo obrigada a fechar as portas e as ruas tomadas pela população furiosa. Porém após as chamas de um dos ônibus incendiados atingirem a um transformador a região ficou sem energia e a população dispersou sob tiros da CORE da Civil que aterrorizou a comunidade até a manhã do sábado. O morro até momento que foi escrito este texto continua ocupado pela polícia.

A Politica de Extermínio Disfarçada de Auto de Resistência

  Desde o ano de 2003 o ISP (Instituto de Segurança Pública) vem disponibilizando os dados dos registros nas ações policiais e nesses dezesseis anos pela primeira os números de autos de resistência — mortes provocadas por policiais em “confrontos” — representam mais da metade dos demais assassinatos registrados em Niterói, isso somente no primeiro trimestre deste ano.

      Dos 59 assassinatos computados no primeiro semestre na cidade, 31 foram executados por policiais em serviço e registrados como Auto de Resistência por motivo de Resistência a Prisão ou Legitima Defesa. O 12º Batalhão da PM responsável por 52% dos assassinatos — O mesmo responsável pela ação terrorista no Preventório ­— foi proporcionalmente o que mais matou alegando auto de resistência, comparado aos batalhões das cidades vizinhas, durante o primeiro trimestre:

  • São Gonçalo teve 117 homicídios assassinatos dos quais 47 (40%) foram registrados como autos de resistência;
  • Maricá teve 22 assassinatos dos quais somente 1 foi registrado como auto de resistência;
  • Itaboraí teve 56 assassinatos e destes 11 foram de autoria da polícia;
  • A Capital Carioca teve 452 assassinatos dos quais 178 (15,5%) foram registrados como autos de resistência.

          Em Niterói a Delegacia da Civil que mais registrou autos de resistência foi 78ª DP do Fonseca na Zona Norte, que computou 17 dos 31 casos na cidade. Em segundo lugar vem a 77ª DP de Icaraí com 6 e em terceiro a 79ª DP de Jurujuba, que fica no pé do morro Preventório e computava na época 4 registros.

            O auto de resistência — criado na ditadura em 1969 vinculado ao AI-5-serviu no passado para eliminar a oposição ao regime, hoje serve como disfarce para a politica de extermínio da juventude negra e em Niterói isso é explícito não só pelos dados mais também no cotidiano das comunidades. Por isso o povo periférico da cidade não viu como coincidência quando no ano passado dois policiais militares, do já citado do 12° Batalhão, foram presos acusados de serem milicianos e lideres de um grupo de extermínio que operava nas cidades da região. Ou seja, a PM não só mata se utilizando de instrumentos da legalidade (como o auto de resistência principalmente) mais também mata na ilegalidade através das milícias e grupos de extermínios também igualmente herdados da ditatura civil-militar no Brasil.

O Genocídio da Juventude Negra Avança e é Necessário Resistir

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      O Pacote “Anticrime” do Moro, a politica genocida de “mirar na cabeça e fogo” do Governo Witzel, o avanço territorial das milícias somados a ascensão à presidência do porta voz dos milicianos e militares, anunciam tempos mais sangrentos nas favelas e periferia. Os números da violência policial não aumentaram só no sudeste, este ano já foram registradas execuções e chacinas de Belém a Porto Alegre.

       Por mais de quinze anos os governos do PT, Lula e Dilma e MDB, Temer fortaleceram os militares e militarizaram o estado através da criação da Força Nacional, da Lei antiterrorismo, da instauração da GLO (Garantia da Lei e da Ordem), impulsionando as UPP’s (Unidades de Policia “Pacificadora”) e principalmente através da intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro. Este ano o governo protofascista de Jair Bolsonaro assumiu um estado extremamente militarizado, que é uma verdadeira máquina de extermínio, pode-se afirmar que literalmente os governos anteriores deixaram uma arma letal de presente para um louco genocida.

          A História recente nos mostra que não podemos confiar em nenhum governo, pois todas as leis que eles criam possuem o objetivo de reprimir, matar, criminalizar os trabalhadores pobres na cidade e no campo. Nessa conjuntura, é direito do povo se defender. E é obrigação das organizações da classe trabalhadora não só estimularem a criação de politicas de autodefesa mais também lutar para garantir acesso desde a serviços de assistência jurídica/psicológica a direitos básicos como moradia digna e direito de ir e vir nos locais de moradia, trabalho e estudo. Pois é inevitável o aumento dos ataques na medida em que se aprofunda a crise no Brasil e a retirada de direitos que consequentemente gerarão aumento da pobreza e mais repressão nas comunidades.

AVANTE A RESISTÊNCIA CONTRA O GENOCÍDIO DA JUVENTUDE NEGRA!

GREVE GERAL CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO!!

NÃO PERDOAR O ESTADO ASSASSINO! NÃO ESQUECER NOSSOS MORTOS!

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