Grande Assembleia de Mulheres Guarani e Kaiowá (VII Kuñangue Aty Guasu)

RECC/FOB-MS

Dentre 16 e 20 de setembro ocorreu a Grande Assembleia de Mulheres Guarani e Kaiowá (VII Kuñangue Aty Guasu) no tekoha (palavra guarani para significar “o lugar onde se é”) Yvy Katu/Potrerito. Neste território existem 15 retomadas de muitos hectares – foge aos olhos o fim do tekoha – que foram protagonizadas por mulheres. Recentemente, o arrendamento de terra pelo latifúndio tem tentado avançar pelo território. Junto com essas bases materiais há a tentativa de cooptação de membros da comunidade, mas a resistência persiste e a Kuñangue é prova viva disso. É importante apontar que o território está diretamente ligado à saúde da mulher indígena, pois é dali que se tira o alimento, o lugar onde as relações sociais são estabelecidas, a memória é mantida e a manutenção da ancestralidade é permitida.

Kuñangue é uma organização de mulheres Guarani e Kaiowá que resiste ao tempo, Estado, capital e patriarcado: “Mulheres Guarani e kaiowá denunciam […] que os latifundiários têm violado de todas as formas o povo Guarani e kaiowá” (relatório da Kuñangue em anexo).

Em cada ano, as pautas avançam e com elas as trajetórias das mulheres envolvidas mesmo com a tratativa esmagadora que surge do Estado em conluio com o capital seja na forma abertamente fascista pela tentativa de progressão do etnocídio de Jair Bolsonaro, seja na forma neodesenvolvimentista que exclui mulheres indígenas da Lei Maria da Penha de Lula da Silva, como o próprio relatório da Kuñangue aponta. Importante lembrar que o fortalecimento dos ruralistas que insistem em arrendamentos ocorreu desde o início dos anos 2000, como na reserva de Porto Lindo. Não por acaso ocorreu ali a III Assembleia da Retomada Aty Jovem (RAJ), em 2018, como documentado em nota da FOB-MS[1].

A FOB esteve presente na assembleia, caminhando ao lado das companheiras Guarani e Kaiowá, em momentos de solidariedade e trocas em debates sobre território, corpo, saúde, meio ambiente, autonomia e mulheres indígenas. Companheiras de todo país estiveram presentes no evento, inclusive indígena Pataxó atingida pela ação assassina da Vale do Rio Doce em Brumadinho. As pautas de dividiram em pontos fundamentais:

  • Território (reintegração de posse, retomada, homologação, demarcação, marco temporal, luta pelo território, direito à consulta prévia e violência policial);
  • Saúde (saúde específica de indígenas, saberes de cura tradicionais pelas Nhandesy e Nhanderu, crítica à biomedicina ocidental, reza, doenças de não indígenas/karaí, parto humanizado);
  • Violência contra mulheres Guarani e Kaiowá (violência do Estado sobre especificidades culturais, estupro, pensão alimentícia);
  • Educação (importância da autonomia familiar e chamado ao programa Teko Arandu para maior respeito do saber indígena).

A Kuñangue Aty Guasu está à disposição para ecoar as vozes das mulhertes.

Saudamos e nos colocamos juntas na trincheira das mulheres indígenas, pelo esmagamento do Estado, capital e patriarcado!

Abaixo, fragmento do documento final:

VII KUÑANGUE ATY GUASU
GRANDE ASSEMBLEIA DAS MULHERES GUARANI E KAIOWÁ

Entre os dias 16 a 20 de setembro de 2019, realizamos a nossa VII Grande assembléia das mulheres Kaiowá e Guarani do cone sul de Mato Grosso Do Sul, a Kuñangue Aty Guasu foi realizada na terra indígena Yvy Katu Potrerito, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai, no município de Japorã-MS.

Estiveram reunidas aproximadamente 600 pessoas: nhandesys, nhanderus, crianças, Jarys/parteiras, Nhamõi e comunidade em geral. Discutimos e encaminhamos pautas sobre a demarcação e homologação de nossas terras, acesso à educação, saúde, segurança, proteção do meio ambiente, efetivação e garantia dos programas sociais, saúde da mulher Guarani e kaiowá, encontro de parteiras do cone sul de MS, violência na vida das mulheres e meninas Guarani e Kaiowá, análise e (re)construção da lei Maria da Penha a partir do olhar da mulher Guarani e Kaiowá, oficinas de enfrentamento à violência contra as mulheres indígenas, empoderamento político e econômico, batismo/nhemôngarai, jeroky e nhembo’e (reza e dança).

No estado de Mato Grosso do Sul nós povo guarani e kaiowá somamos mais de 50 mil indígenas, considerados a segunda maior população indígena do Brasil. Aqui organizadas, resistentes e em luta viemos por meio desta defender os nossos direitos e encaminhar propostas e recomendações de proteção e fortalecimento de nosso povo Guarani e Kaiowá. Há 519 anos nós lutamos pela demarcação de nossas terras que atualmente estão de posse do latifúndio como propriedades privadas. Estamos enfrentando um governos que vem retirando todos os nossos direitos legais, nos impedindo de existir, vendendo tudo o que é nosso, privatizando a terra que nos resta, acabando com o meio ambiente, aos olhos do capitalismo tudo virou mercadoria, se esquecem que todos os recursos naturais também acabam e a vida no planeta está ameaçada. As políticas anti-indígenas avançam no congresso nacional. Aplicar a tese do marco temporal é a morte do povo Guarani e kaiowá, é invalidar os nossos direitos pela demarcação de terras indígenas.

O governo brasileiro e seus poderes legislativo, executivo e judiciário a cada momento criam novas propostas de leis que de forma inconstitucional atinge diretamente a vida dos povos indígenas. Hoje a nossa luta e o nosso grito é pela demarcação de nossas terras tradicionais, pela vida as mulheres indígenas, pela proteção das nascentes, rios, florestas, animais e pelo direito de existir.

A assembleia da Kuñangue Aty Guasu acontece anualmente, não é um espaço só de mulheres, mas organizado por elas.

A Kuñangue Aty Guasu condena todos os tipos de violência contra a vida das mulheres indígenas, é contra todos os pacotes de leis que ferem os nossos corpos, nos violam, nos assassinam e retiram o nosso direito à vida. Mulheres Guarani e kaiowá denunciam diante da plenária e do poder público, presente na assembléia, que os latifundiários têm violado de todas as formas o povo Guarani e kaiowá. Denunciam que o confinamento no espaço das Reservas Indígenas trouxeram muitas doenças e um atravessamento enorme de modos de vidas e religião. Nhandesys e nhanderus durante o nhembo’e (reza) recebem o recado de nossos protetores e anunciaram que em breve vai aumentar o número de crianças que nascerão com câncer e má formação, terão outras características físicas, terão rabo/cauda, consequências da não proteção do meio ambiente, da maldade humana contra o próximo, de muito agrotóxico que avançam e estão presentes em todos alimentos e na água, atingindo diretamente a vida das pessoas, além dos pulverizados sobre as comunidades como forma de extermínio.

Com o avanço do desmatamento, da não demarcação de terras indígenas, queimadas e altas doses de veneno a medicina tradicional está bem enfraquecida, as árvores choram, os rios sangram, a terra arde em chamas e com elas morre lentamente a população indígena desse país. Isso é resultado do avanço do capitalismo que tem a terra como mercadoria, que busca o dinheiro e poder, diferente de nós povos indígenas que somos os protetores da terra sagrada. Nós mulheres indígenas reafirmamos a nossa luta e a nossa resistência na VII Kuñangue Aty Guasu – Grande Assembléia das Mulheres Kaiowa e Guarani de Mato Grosso Do Sul. Nhandesys e parteiras estiveram reunidas em defesa da saúde indígena, afirmando que estamos vivendo tempos de doenças, que em breve irão passar por depressões e que tristezas profundas irão estar presentes. O fortalecimento da criança no cuidado tradicional desde o seu nascimento é muito importante e emergencial, precisam estar fortes diante de todas as situações que afetam diretamente o nosso povo. Desde o ventre de suas mães necessitam de nhembo’e/reza, após o nascimento ter o nhemongarai/batismo e cuidar delas com pohã roysã/remédios tradicionais.

Atualmente a medicina do não indígena avança sobre o corpo da mulher indígena, o espaço estranho do hospital assusta, as violências obstétricas continuam quando vidas dão vidas a vidas. A medicina do não indígena tem uma concepção diferente do nosso olhar Guarani e Kaiowa, deixam as doenças adormecidas, não tem paciência em cuidar de um corpo indígena onde a pele é da cor da terra, a língua é diferente, os modos e costumes são diferentes. A medicina Guarani e Kaiowá é pouco valorizada, mas cura de verdade, por que é acompanhada da massagem, da reza, da escuta, dos chás que antes passam por cuidados tradicionais e não se cobra para este cuidado. É por essa medicina que lutamos, é pelo fortalecimento dela, pela defesa das matas, das nascentes, dos rios e das árvores. O cuidado tradicional renasce pelas mãos das mulheres guarani e kaiowá, as jarys, pelo cuidado e em defesa da vida delas que a Kuñangue Aty Guasu luta. Há uma grande preocupação com o futuro de nossas filhas(os), netas(os), de nossas crianças, o que será da vida das mitã kuera/crianças com tudo sendo destruído. Elas irão sofrer muito, precisam aprender as rezas emergencialmente para resistir, pois as mulheres do conhecimento tradicional já estão idosas e partindo. As parteiras Guarani e Kaiowá pedem espaço e reconhecimento em todos os lugares. A medicina não indígena precisa ser escuta da medicina Guarani e Kaiowá, valorizar as parteiras é o fortalecimento de quem cuida de vidas e vidas nos importam muito.

A violência nos fere cotidianamente, e avançam com mais forças. Mulheres indígenas gestantes apanham dos seus companheiros e não há uma proteção legal efetiva a elas, nos veem como soco rupá/saco de pancada, pedimos socorro, que dentro da Lei Maria da Penha haja um parágrafo que atenda às nossas especificidades como mulheres indígenas. Em nossa aldeia não há sinal de telefone, inclusive para comunicar o descumprimento de medidas protetivas, como iremos denunciar se as delegacias estão distantes e no caminho podemos ser mortas? Isto é uma violência silenciosa que assassinou e continua assassinando as mulheres indígenas Guarani e Kaiowá.

Os homens precisam dar valor e não violentar as mulheres indígenas, somos nós quem damos vidas a eles, saem dos nossos ventres, precisam estar mais presentes em nossas assembleias para ser escuta do que tem a dizer as mulheres da nossa comunidade, e tem que entender e acolher as nossas demandas não nos perseguir por isso. Há muitas violências contra as jovens e crianças indígenas, há muitos abusos sexuais, o estatuto do ECA(estatuto da criança e adolescente) precisa ser cumprido em defesa das crianças e adolescentes indígenas. Nas universidades há muito preconceito e racismo institucional enraizado, pedimos respeito e acolhimento as(os) acadêmicas(os) indígenas.

Faculdade Intercultural Indígena – FAIND/UFGD é filha da luta do Aty Guasu e da Kuñangue Aty Guasu, os acadêmicos e professores precisam estar presentes em nossas assembléias, exigimos mais professores indígenas na FAIND-UFGD, que os materiais sejam na língua, que os professores falem à nossa língua materna, que respeitem o corpo da mulher indígena, estamos acompanhando e fiscalizando as ações/atividades da FAIND-UFGD e estamos abertas para diálogo e contribuição. As mães/pais/responsáveis precisam ter mais cuidados com as filhas (os), não ensina no karai reko/modo de ser não indígena. Precisam ensinar os meninos a não bater nas meninas, mas sim lutar com elas, mãe e pai é autoridade na família, a formação tradicional é o fortalecimento da identidade das crianças. Temos que sentar e aconselhar os nossos filhos para não reproduzirem a violência. O consumo de drogas deixam mães, pais, jovens e crianças em situação vulnerável. Existe a reza para a bebida alcoólica e para as drogas procurem os nhanderus e nhandesys, o aumento dessas drogas são consequências do confinamento, o “chiqueiro” que é o espaço das Reservas Indígenas.

A Kuñangue Aty Guasu está à disposição para ecoar as vozes das mulheres que queiram falar sobre a violência. Desejamos forças e que venham se unir a nós, não usem mais a desculpa de que caíram de bicicleta ou caíram jogando futebol, na justificativa de seus hematomas. A Lei Maria da Penha para proteger a vida de mulheres indígenas é uma lei morta no papel e na prática, porém é a única que tenta minimizar o que chamamos de violência. Mulheres que se colocam como homossexuais sofrem triplamente a violência em seus corpos. A rede territorial (líderes) a maioria são homens, “capitães”, não nos ajudam a suportar, refletir e mudar tudo que reproduz a violência no confinamento da Reserva Indígena. Assim como a igreja que fortalece o discurso de que “o amor tudo suporta” ignorando o enfrentamento à violência contra as mulheres indígenas. Quando dizemos que as nossas terras não são mercadorias queremos protegê-la do capitalismo que destrói, explora e privatiza. Demarcar e homologar as terras indígenas é proteger muitas vidas, o meio ambiente, a medicina tradicional, os animais, nascentes, e tudo que nos produz vida. A Kuñangue Aty Guasu vem aqui trazer as demandas das mulheres indígenas após essa escrita acima que é um pedido de socorro à VIDA das Mulheres Guarani e Kaiowá.

[1] https://lutafob.wordpress.com/2018/09/25/iii-assembleia-da-retomada-aty-jovem/

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