Crise no Irã: uma perspectiva revolucionária e anti-imperialista

Crise no Irã: uma perspectiva revolucionária e anti-imperialista

Por FOB Nacional

Desde dezembro o Irã vem sendo tomado por uma série de manifestações e greves massivas que têm sido respondidas com brutal repressão do governo teocrático que já deixou milhares de mortos, por um lado, e indícios de ingerência dos EUA e Israel, por outro. Essa conjuntura tem dividido o posicionamento de diversas organizações autoproclamadas revolucionárias entre dois extremos. 

De um lado, há aqueles que apoiam inconsequentemente a derrubada da ditadura teocrática, mesmo que às custas da restauração da dinastia Pahlavi no país, que manteve por décadas um regime não apenas igualmente autoritário, mas também que estava integralmente subordinado aos EUA. Em contrapartida, há os agrupamentos que defendem incondicionalmente a ditadura teocrática, independentemente de seu viés reacionário e dos expurgos que promoveu contra as organizações de esquerda que codirigiram a revolução de 1979, além de seguir exercendo repressão diária sobre as massas iranianas, em particular as mulheres.

Estas duas posições são incompatíveis com os princípios do sindicalismo revolucionário, pois ignoram a tarefa essencial e que deve nortear os movimentos revolucionários e anti-imperialistas não apenas no Irã mas também em qualquer outro país: a construção de organizações de classe com condições de emancipar a grande maioria oprimida de seus algozes, tanto seu próprio governo e burguesia nacional quanto os agressores imperialistas.

Considerando dessas premissas, o ponto de partida para um posicionamento consequente a respeito do Irã é reconhecer a legitimidade das motivações que deram início às manifestações massivas: a impotência do governo em apresentar uma solução para o aumento significativo da inflação e da carestia de vida (em parte consequência das sanções impostas pelo Ocidente) e as imposições reacionárias do regime teocrático, em particular contra as mulheres. Também é verdade que há no Irã alguns grupos, desde partidos a sindicatos, que reivindicam a independência de classe e a necessidade de lutar tanto contra o regime teocrático quanto contra a interferência imperialista. Contudo, neste momento não há indícios de que estes grupos já consolidaram um nível de organização ao ponto de dirigir um movimento capaz de arcar simultaneamente com as tarefas de derrubar o governo iraniano, expropriar a burguesia nacional e ainda assim assegurar a autodeterminação do povo contra qualquer ingerência estrangeira durante esse processo. Por consequência, o movimento de massas que parte de reivindicações legítimas está ameaçado de cair na influência da propaganda imperialista, que visa a substituição da ditadura teocrática pela ditadura da dinastia Pahlavi, repetindo um processo análogo à queda de Gaddafi na Líbia ou Assad na Síria.

Assim, a melhor forma de prestarmos solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras iranianas não é se limitando a notas pela defesa da derrubada inconsequente do governo iraniano de modo a abrir espaço para a interferência imperialista, tampouco pela defesa incondicional da ditadura teocrática que oprime os trabalhadores e trabalhadoras. Nosso papel, no Brasil e América Latina, deve ser atuar pela construção e fortalecimento de nossas próprias organizações revolucionárias, tomando como exemplo o levante espontâneo das massas iranianas por melhores condições de vida e trabalho bem como seus métodos de ação direta, visando a impor ao nosso próprio governo nossas reivindicações mais sentidas (destacamos, no momento, a campanha pelo fim da escala 6×1) e combater a ofensiva que o imperialismo estadunidense também exerce na América Latina, em particular na Venezuela. Bem como trabalhar para fortalecer uma associação e solidariedade internacional dos povos e classe trabalhadora, como vem se desenvolvendo a CIT (Confederação Internacional do Trabalho). A eventual vitória dos trabalhadores auto-organizados em qualquer parte do mundo, seja na América Latina ou no Oriente Médio, não apenas enfraquece as ambições imperialistas em outras partes, como também servirá de exemplo aos trabalhadores de todo o mundo na luta por sua emancipação.

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