17 de abril de 1996 — 17 de abril de 2026. Três décadas depois do massacre de Eldorado dos Carajás, 142 policiais seguem absolvidos. A terra foi conquistada no sangue. A impunidade segue no Tribunal do Judiciário.
Há trinta anos, numa curva de asfalto no sudeste do Pará, o Estado brasileiro mostrou sem véus o que sempre foi: o braço armado dos capitalistas, dos patrões. Na Curva do S, em Eldorado dos Carajás, cerca de 1.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra bloqueavam a estrada PA-150, no km 95, em protesto — exigindo transporte, alimentação e a desapropriação da fazenda Macaxeira, ocupada por 3.500 famílias desde 1995. O que receberam foi bala.
Em 17 de abril de 1996, policiais militares abriram fogo contra o grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No ato, 19 pessoas foram assassinadas e dezenas ficaram feridas. Outros dois trabalhadores morreram dias depois, vítimas dos disparos.
Vinte e um mortos. O maior massacre camponês da história recente do Brasil.
O QUE A ORDEM MANDA FAZER
Não houve acidente. Não houve excesso individual. Houve uma cadeia de comando, uma decisão política e uma execução metódica.
Por ordem do secretário estadual de segurança pública, Paulo Sette Câmara, a polícia foi instruída a desobstruir a rodovia “a qualquer custo”. O governo Almir Gabriel, do PSDB, cumpriu seu papel de guardião da ordem fundiário, juntamente como governo federal de Fernando Henrique Cardoso e Marco Maciel (PSDB e PFL)
Durante a operação, os policiais retiraram a identificação dos uniformes, o local do crime foi adulterado com a retirada dos corpos antes da perícia, as armas não tiveram as cautelas assinadas, e policiais utilizaram armas particulares para executar as vítimas. Não foi uma falha do sistema. Foi o sistema funcionando para proteger a si mesmo.
O resultado judicial confirma tudo: dos 144 policiais denunciados, 142 foram absolvidos. Apenas os dois comandantes da operação foram condenados por homicídio.
Trinta anos. Cento e quarenta e dois absolvidos. Essa é a régua da justiça de classe no Brasil.
O CORPO QUE O ESTADO ESQUECE
José Carlos Agarito Moreira tinha 18 anos na Curva do S. Hoje tem 48. Baleado no olho durante o massacre, foi assentado e viveu da roça por 20 anos, mas deixou a terra após o agravamento das sequelas. Hoje mora na cidade, faz hemodiálise três vezes por semana e cobra do Estado o cumprimento de decisões judiciais que determinaram reparação aos sobreviventes.
Zé Carlos aponta para a prótese no lugar do olho direito e descreve a dor que atravessa a cabeça e escorre em pus pela nuca e pelo ouvido. “Acho que é o zinabre da bala que ficou lá dentro”, diz. A bala do Estado. A bala que o Estado absolveu.
Esse corpo — partido, esquecido, sem reparação — é a resposta concreta a quem ainda acredita que o problema foi “excesso policial”. O excesso é a regra. A exceção seria a punição.
A TERRA CONQUISTADA NO SANGUE
A tragédia gerou, apesar de tudo, uma vitória material. Em junho de 1997, as terras da fazenda Macaxeira foram desapropriadas e criou-se o Assentamento 17 de Abril, com capacidade para 690 famílias em uma área de 18.090 hectares.
Na Curva do S, um monumento feito de troncos de castanheiras fincados no chão marca o lugar do crime. O monumento projetado originalmente por Oscar Niemeyer foi destruído dias após a inauguração. Em resposta, sobreviventes ergueram as Castanheiras de Eldorado dos Carajás — símbolo de resistência e luto.
30 ANOS: O QUE MUDOU NO CAMPO?
Trinta anos após o massacre, o caso permanece cercado por lacunas, investigações inconclusas e perguntas que a Justiça nunca respondeu — inclusive sobre o envolvimento de fazendeiros da região e os interesses políticos e econômicos que se beneficiaram do massacre.
O que o sindicalismo revolucionário reafirma nessa data não a memória dos trabalhadores rurais que caíram por um chão para viver e ter dignidade, mas tem que é a luta por terra e é essencial para LIBERTAÇÃO do povo. O Estado capitalista, periférico e dependente brasileiro, não reforma sua relação com a terra. Ele a defende com bala para os patrões. Sempre defendeu. O 17 de abril de 1996 não foi uma ruptura — foi uma exposição.
A LUTA NÃO TEM DATA DE ENCERRAMENTO
A Via Campesina consagrou o 17 de abril como o Dia Internacional da Luta Camponesa em memória aos mártires de Eldorado dos Carajás. Nesta semana, é a realizada marcha entre Curionópolis e Eldorado dos Carajás, com atos políticos, debates e atividades culturais, encerrando na Curva do S com um ato em memória das vítimas.
Marchamos com eles. E afirmamos, como afirmam os princípios do sindicalismo revolucionário desde as origens: a emancipação da classe trabalhadora — do campo e da cidade — só pode ser obra dos próprios trabalhadores. Não virá do Estado que massacra. Não virá dos tribunais que absolvem. Não virá dos governos que alternam entre a ordem e a ordem bem-falante.
Virá da organização autônoma, da ação direta, da solidariedade de classe construída de baixo para cima — do assentamento à fábrica, da escola à rua.
Vinte e um mortos. Cento e quarenta e dois absolvidos. Uma terra conquistada. Uma luta que continua.
TERRA E LIBERDADE!
