A cada dois anos, o mesmo ritual se repete. Palanques, jingles, promessas recicladas, coligações que ontem se acusavam de corrupção e hoje dividem o mesmo palco. Somos convocados a depositar, numa urna, a expectativa de mudar nossas vidas e, feito o gesto, devolvidos à mesma rotina de exploração no trabalho, à mesma fila do posto de saúde, à mesmo ônibus e trem lotado, à mesma conta que não fecha no fim do mês. O voto é o momento em que o poder nos pergunta se aceitamos delegar para outra pessoa a decisão sobre nossa própria vida. A FOB responde: não.
Não se trata de apatia. Abster-se de votar, para nós, não é indiferença: é uma posição política construída, um recorte deliberado que separa a ilusão da representação da tarefa real, que é a organização direta de nós explorados e exploradas para a melhoria das próprias condições de vida. Quem vota delega; quem organiza, luta. São dois caminhos que não se somam, porque partem de pressupostos opostos sobre onde mora a força capaz de transformar a realidade.
O parlamento não é o lugar da classe trabalhadora
O Estado não é um território neutro disputável por qualquer projeto, à espera de ser ocupado por “boas intenções” ou “quadros comprometidos”. É uma estrutura hierárquica, montada historicamente para administrar a propriedade privada, garantir a acumulação capitalista e, quando necessário, reprimir quem ameaça essa ordem. Não existe uso “tático” do parlamento que não termine absorvido pela lógica que o constitui: a da negociação entre elites, da governabilidade, do acordo com quem sempre esteve do outro lado da mesa. A história do movimento operário está cheia de organizações que entraram no jogo eleitoral prometendo usá-lo como trincheira e terminaram administrando o próprio capitalismo, com verniz mais ou menos social, mas sem tocar a estrutura de exploração.
Isso não é acidente nem traição pessoal de lideranças: é a lógica do poder. O parlamento organiza a política em torno de representantes e representados, especialistas da política e massa espectadora. Ele desloca a capacidade de decisão de quem vive o problema; o trabalhador na linha de produção, o motoboy, o entregador, a trabalhadora doméstica, o morador da periferia, o camponês sem terra; para um terceiro que fala em seu nome, negocia em seu nome e, ao final, presta contas a quem financia sua campanha e a quem compõe as maiorias de ocasião. A cada eleição, a energia coletiva que poderia se acumular em organização de base é canalizada para dentro das urnas e ali acaba.
O que propomos no lugar do voto
Lutar fora do parlamento não é lutar menos: é lutar onde a força realmente se constrói. Isso significa:
Organização de base nos locais de trabalho e moradia. Comissões de fábrica, comissões de bairro, núcleos sindicais combativos, coletivos de trabalhadores informais e autônomos: espaços onde a decisão é tomada por quem vive o problema, em assembleia, sem intermediários profissionais da política.
Ação direta. Greves, ocupações, bloqueios, boicotes, piquetes, autodefesa comunitária. Formas de luta em que os próprios interessados aplicam pressão diretamente sobre quem os explora ou reprime, sem pedir permissão a um representante e sem esperar por uma lei que talvez nunca venha; ou que, aprovada, seja descumprida.
Solidariedade de classe horizontal. Apoio mútuo entre categorias e territórios em luta, fundos de greve, redes de solidariedade que não dependem de verba estatal nem de aprovação eleitoral, e que fortalecem os laços de quem já está organizado independentemente do calendário político oficial.
Federalismo e autogestão. Construção de organizações de base federadas de baixo para cima, mantendo a autonomia de cada núcleo e a decisão coletiva em assembleia, na perspectiva de que a própria classe trabalhadora; e não um partido, um gabinete ou uma vanguarda iluminada; deve gerir diretamente a produção, o território e a vida em comum.
Uma tradição, não uma novidade
Essa aposta na organização direta e na ação direta não nasce agora: atravessa mais de um século de sindicalismo revolucionário, de greves gerais que arrancaram conquistas sem depender de um único voto, de experiências de autogestão operária e camponesa que mostraram, na prática, que produção e território podem ser geridos coletivamente, sem patrão e sem burocracia estatal. É essa tradição que a FOB busca reatualizar: não como saudosismo, mas como método vivo nas lutas de hoje; a precarização do trabalho, a especulação imobiliária, o agronegócio contra o campesinato, a devastação ambiental, a violência de Estado nas periferias.
Não vote, lute
Recusar a urna é recusar depositar em outra pessoa a responsabilidade que só a organização coletiva pode assumir. Não é esperar quatro anos por um mandato: é começar agora, no seu local de trabalho, no seu bairro, na sua categoria, a construir a força que nenhuma eleição concede e nenhuma derrota eleitoral tira. O poder que muda vidas não está numa cabine de votação; está na capacidade organizada de trabalhadores e trabalhadoras de parar a produção, ocupar o que é necessário, sustentar uma greve, defender um território e decidir coletivamente seu próprio destino.
Não vote. Organize-se. Lute.
