As mãos que queimam o pantanal

As mãos que queimam o pantanal

Nota Nacional da FOB

O Pantanal possuí a maior superfície inundável do mundo e, por isso, grande biodiversidade. Agora as chamas o ameaçam. Boa parte de suas águas vem de fora, 35% tem origem no Cerrado, hoje com metade do seu bioma destruído.

Mesmo sendo o menor bioma brasileiro (com 150 mil km²), o Pantanal possui a maior presença de vegetação nativa preservada, depois da Amazônia. É exatamente por isso que há fogo, pois na visão dos grandes fazendeiros há o que ser destruído.

Mas como a maior planície alagável do mundo pode queimar assim? Diretamente por incêndios criminosos e, indiretamente, pela degradação ambiental.

A queimada de mais de 23% da vegetação do Pantanal tem indícios de fogo criminoso, mal intencionado. Cinco fazendeiros do Mato Grosso do Sul estão sob suspeita de autoria dessa atividade criminosa. Objetivos? Transformar áreas de vegetação nativa em espaço para a produção agropecuária de latifundiários.

Agente do PrevFogo disse que dados meteorológicos já apontavam aumento das queimadas em 2020, mas governo atrasou edital para novos brigadistas.

Destrói-se fauna, flora, solo e água para dar lugar a pastos e monocultura. Importante lembrar que boa parte da produção latifundiária vai para exportação, como cana, soja, carne etc. Não alimentam a mesa da família brasileira que, agora, amarga uma horrível inflação. Como consequência, começamos a ver saques a supermercados na tentativa de resolver o problema social da fome e do desemprego.

O dano às vidas humanas também pode ser notado. A fumaça que torna o ar irrespirável no centro-oeste foi sentida até em Santa Catarina. O alastramento do fogo para territórios indígenas têm obrigado a remoção forçada e emergencial dos povos tradicionais. Estes vão para alojamentos provisórios, cuja aglomeração representa um grave risco de contágio por Covid-19 entre uma população que apresenta os mais altos índices de letalidade para a doença (devido à precariedade dos recursos do sistema de atenção à saúde dos povos indígenas).

Pela negligência dos governos estaduais e federal no combate aos incêndios, dificilmente haverá averiguação e punição dos culpados se não houver pressão social. A desestruturação de órgãos ambientais, como o Ibama e ICMBio, e o discurso empresarial e anti-ambiental do Bolsonarismo cria um ambiente permissivo a esses crimes.

Os atuais incêndios no Pantanal são uma continuidade da ação criminosa de latifundiários com apoio do governo Bolsonaro. Tal ação, que ficou conhecida com o “dia do fogo”, consiste na promoção de queimadas orquestradas que provocaram enormes incêndios na Amazônia a partir de agosto do ano passado.

Outra possível razão para os incêndios no Pantanal é a falta de chuvas regulares na região. As chuvas são produzidas por um ciclo hidrológico que depende da preservação das cabeceiras, cursos de rios, das matas ciliares, dos solos, entre outros. E as cabeceiras, matas ciliares e solos estão sendo continuamente degradados, gerando assoreamento dos rios, alteração nos ciclos biogeoquímicos da natureza, o que impacta no regime de chuvas. O fogo de hoje também está na degradação das nascentes e matas de ontem.

Queimar a Amazônia interfere na transpiração das árvores e na formação de chuvas. Chuvas que através dos chamados “rios voadores” deságuam no centro e sul do Brasil, inclusive no Pantanal. O desequilíbrio é claro: o desmatamento da amazônia e do cerrado geram diminuição das chuvas do Pantanal.

Em que pese os altos índices de desmatamento da Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pampa, o Brasil possuía uma legislação florestal relativamente superior aos demais países. Em 2012, o então deputado “comunista” Aldo Rabelo (PCdoB, aliado do PT), sob a bandeira do “desenvolvimento nacional” foi o relator da reforma no Código Florestal aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidente Dilma.

À época, Rabelo se queixou de que “a agropecuária perdeu milhões de hectares para unidades de conservação e terras indígenas”. Curiosamente, hoje, quem é a voz que se queixa – e queima – vegetação nativa e terras indígenas?

Aliás, competir no mercado internacional de commodities com suposto desenvolvimento da economia agrária brasileira são pontos em comum do bolsonarismo e lulismo.

O Novo Código Florestal, entre outras medidas, perdoou desmatamentos e ampliou a possibilidade de uso do solo para produção, por exemplo, ao redor de nascentes, reduzindo áreas de mata ciliar e permitindo plantios em algumas encostas de morro. A natureza foi atacada, mas cobra a conta.

É preciso compreender a dinâmica da natureza. Seu tempo não é compatível com a aceleração de uma produção agropecuária. Produção esta que sequer alimenta as famílias brasileiras, serve apenas para engordar o bolso dos senhores do “agro é pop”. Agora, temos menos Pantanal, um ciclo irregular de chuvas, menos empregos e muita fome. Bolsonaro é culpado? Sim! E não é culpado sozinho. Que paguem todos os culpados da fome e do fogo!

Petismo e bolsonarismo tem pontos em comum que devem ser desvendados. De outro modo, qual seria a razão das atuais alianças eleitorais entre supostos inimigos em diversos municípios? Será que conseguiremos achar soluções para o desmatamento, as queimadas, os extremos climáticos, para o desemprego e a fome vendo a vida por esta cortina de fumaça empresarial e estatista que coloca bolsonaristas e petistas em lados supostamente opostos?

Rejeitamos os dois lados desta mesma moeda capitalista. Queremos outro modo de vida. Traçamos nossa grande política independente. Nós somos trabalhadoras e trabalhadores e estamos com o povo do lado do Pantanal, pela vida e pela saúde.

Pelo Pantanal vivo: cuidar das matas, rios e solos!
Punição aos criminosos incendiários do Pantanal!
Nem Bolsonaro, nem o PT: trabalhadores no poder!

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